terça-feira, 25 de maio de 2010

Biografia de um indigente - Parte I

“Pés descalços, bermuda surrada, um pedaço de pão na mão. No rosto as marcas de um resfriado que se não cura, e no olhar o desejo de ser amado. Não tem o tamanho de um homem grande, mas é tratado como se assim fosse. O choro e os palavrões são as suas armas. Por enquanto, a sua única “amiga e inimiga” é aquela que lhe deu a vida. Ele é o caçula de “uma dúzia de frutos indesejados”. O seu destino não foi traçado na maternidade, e sim num quarto escuro de uma esquina qualquer. Ninguém lhe ouve, seu grito representa um desespero, uma angústia. Dizem que ele é o futuro da nação. Que nação?! As leis que ele aprende não foram feitas por homens engravatados, mas sim por homens armados e amados por aquela que lhe pôs no mundo. Sua primeira foto, foi na mesa de um bar, ao lado da garrafa de pinga e de um maço de cigarro. Foi batizado com álcool etílico, no dia em que sua mãe, mais uma vez, foi abandonada. Nem tudo é tristeza para ele, a bola talvez seja a sua maior alegria, e quem sabe a esperança de um futuro melhor. A única certeza que ele tem na vida é de que quando crescer será um jogador de futebol. “

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O ENEM e o PROUNI na minha vida

Três décadas, trinta anos, essa é a minha idade. Três filhos, Tripla jornada. Literalmente o número três me persegue.

Numerologia a parte, estou vivendo a melhor fase da minha vida. Nunca pensei chegar onde cheguei. Aliás, pensei sim, na brincadeira de criança, quando o meu sonho era entrar na faculdade e ser Advogada.
Forçadamente, e por força do destino, tive que esperar um pouco até que eu conseguisse chegar onde cheguei, ao banco da sala de aula de uma Universidade.

Modéstia a parte, capacidade até que eu tinha, haja vista as minhas notas do Ensino Fundamental e do inicio do Ensino Médio. O problema é que eu decidi, por um acaso, mudar o ciclo natural da vida. Aos 16 anos, com uma criança no colo, tive que assumir o papel de mãe. Os estudos já não faziam mais parte dos meus planos, pelo menos por enquanto.

Abandonei os estudos, constitui família, mas continuei trabalhando.Com três filhos, aos 22 anos, nunca parei de trabalhar. A carreira doméstica não era pra mim. Minha independência começou no meu primeiro emprego, aos 13 anos.

Eu sabia que nos estudos estava a minha chance de ser feliz de verdade. Que era a oportunidade de proporcionar aos meus filhos uma vida mais digna. Infelizmente, não consegui conciliar a vida familiar e profissional, com a escola.

Enfim, no ano passado, quando eu já pensava em encarar um EJA (Ensino de Jovens e Adultos), para terminar o terceiro ano do Ensino Médio, surge uma grande oportunidade: o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).

O ENEM, além de avaliar o Ensino Médio, proporcionar o acesso as Universidades Federais e ao PROUNI (Programa Universidade para Todos), daria a chance àqueles que, por algum motivo, não concluíram o Ensino Médio, de certificar as suas competências, e se habilitar a continuar os estudos no Ensino Superior.

Mesmo fora da escola por treze anos e sem tempo para pegar nos livros, resolvi me inscrever. Peguei um simulado da internet, e rascunhei algumas respostas. Foi o que fiz até os dias das provas. E que provas!

Foi uma maratona de perguntas longas que, no meu ponto de vista, não eram difíceis de se responder, mas tinha que ser compreendidas. Pura interpretação de texto. Imaginem a situação do segundo dia de prova. Português, Matemática, e Redação. Pensei: “Já era! Nem estudei.”

Contei os dias para saber o resultado. A ansiedade me consumia. Mas, finalmente saiu o resultado das provas. E...surpresaaaa: mandei muito bem. Além de garantir a certificação para o Ensino Médio, havia garantido pontuação suficiente para concorrer às vagas do SISU e do PROUNI.

Confesso que chorei. Chorei muito. Pulei de alegria. Parecia uma adolescente. Pensei nos meus filhos. Na minha mãe. Na minha vida. E na história que um dia eu tinha deixado de escrever.

Inscrevi-me para a 1ª chamada do PROUNI.  Fui aprovada na minha 1ª opção: Jornalismo (que hoje eu curso na UNISANTA). Não sei como descrever a felicidade que senti. Toda vez que eu via o comercial do PROUNI caía no choro e dizia: Eu Consegui!

Nos primeiros dias de aula, custei acreditar que o sonho tinha se tornado realidade. Aos poucos, a ficha foi caindo, e finalmente assumi a minha mais nova posição social: a de Universitária.

Digo que foi Deus no Céu, que me deu força e coragem para alcançar meus objetivos. E o Presidente Lula, na Terra, que por meio da democratização do Ensino Superior, deu oportunidade para que eu, e milhares de jovens do País conseguíssemos ser “Alguém um dia na vida”.